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Empresários americanos passaram a redesenhar a política dos EUA para a Venezuela após a queda de Maduro

Empresários americanos passaram a redesenhar a política dos EUA para a Venezuela após a queda de Maduro

Após a prisão de Nicolás Maduro em uma operação militar dos Estados Unidos, o governo Trump passou a se apoiar em executivos do setor petrolífero para planejar a reentrada de empresas americanas na Venezuela. No centro desse processo está o bilionário Harry Sargeant III, empresário com longa atuação no país, relações diretas com Trump e histórico de interlocução com a elite chavista, revelando como interesses energéticos têm orientado a nova estratégia norte-americana para o futuro venezuelano.

Harry Sargeant III, bilionário do setor energético e importante doador do Partido Republicano é apontado como um dos principais conselheiros informais da administração Donald Trump para reorganizar o setor petrolífero venezuelano no período pós-Maduro.

Segundo fontes próximas às discussões internas do governo norte-americano, Sargeant e membros de sua equipe vêm orientando Washington sobre como permitir o retorno gradual de empresas petrolíferas dos Estados Unidos à Venezuela. Esse movimento ganhou força após a recente e dramática operação militar americana que culminou na prisão do então presidente Nicolás Maduro, evento que alterou radicalmente o equilíbrio político do país.

Sobretudo, o envolvimento de Sargeant evidencia uma característica recorrente da política externa americana em contextos de crise energética: a dependência de executivos privados para suprir a ausência de expertise técnica dentro do próprio Estado. Como observou uma das fontes da Casa Branca, há pouquíssimos quadros no governo dos EUA capazes de lidar com a complexidade operacional e financeira da indústria petrolífera venezuelana, o que abre espaço para a influência direta de empresários experientes, e politicamente conectados.

Nesse cenário, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou que os Estados Unidos refinariam e venderiam até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano apreendido, afirmando que os recursos obtidos seriam distribuídos de maneira controlada, com o discurso oficial de beneficiar a população do país. Trata-se de uma estratégia que combina retórica humanitária com controle econômico, algo recorrente na história das intervenções americanas na América Latina.

Embora os interesses comerciais de Sargeant na Venezuela sejam modestos se comparados aos da Chevron (atualmente a única empresa americana com autorização federal para exportar petróleo venezuelano), sua presença no país remonta à década de 1980. Suas empresas atuam principalmente na exportação de asfalto, derivado do petróleo pesado venezuelano, além de investimentos diretos em campos petrolíferos. Ao longo desse período, Sargeant construiu relações com figuras centrais do poder chavista, incluindo o próprio Maduro e a atual presidente interina, Delcy Rodríguez.

Do mesmo modo, sua proximidade pessoal com Donald Trump reforça seu peso político. Segundo relatos, Sargeant frequenta Mar-a-Lago, joga golfe com o ex-presidente e mantém acesso direto a membros-chave da administração. Recentemente, reuniu-se com autoridades como o secretário de Energia, Chris Wright, para discutir a necessidade de modernização da infraestrutura petrolífera venezuelana e os termos contratuais que poderiam tornar o país novamente atraente às empresas americanas, historicamente receosas dos riscos jurídicos e financeiros envolvidos.

Embora Sargeant negue atuar como assessor formal do governo, confirmou que seu filho e outros executivos de sua confiança mantêm diálogo constante com autoridades americanas. Além disso, como outros líderes do setor, ele defende uma abordagem pragmática: negociar com Delcy Rodríguez, figura central do antigo regime, em vez de apostar exclusivamente na líder da oposição, Maria Corina Machado. Na visão de Sargeant, Rodríguez teria maior capacidade de controlar o setor petrolífero e, eventualmente, conduzir uma transição política com eleições supervisionadas.

Enquanto isso, a Casa Branca evita comentar diretamente o papel do empresário, limitando-se a afirmar que Trump estaria exercendo “máxima influência” sobre os remanescentes do poder venezuelano, com objetivos claros: conter a migração ilegal, interromper o tráfico de drogas, revitalizar a indústria do petróleo e, ao menos no discurso, promover o bem-estar da população venezuelana.

A trajetória de Sargeant ajuda a compreender por que seu nome suscita controvérsias. Ex-diretor financeiro do Partido Republicano da Flórida, ele e sua família doaram milhões de dólares a campanhas conservadoras, incluindo aportes significativos ao Trump Victory Fund. No plano internacional, atuou em alguns dos ambientes mais instáveis do mundo, como o Iraque em guerra, onde firmou contratos para abastecer tropas americanas, contratos que, anos depois, foram alvo de investigações por suposto superfaturamento, das quais acabou absolvido.

Mais recentemente, suas operações na Venezuela foram impactadas pelas sanções impostas pelo próprio governo Trump em seu primeiro mandato, quando o Departamento do Tesouro revogou licenças que permitiam a exportação de asfalto. Ainda assim, com o afrouxamento parcial das sanções em 2024, suas empresas retomaram acordos com a estatal PDVSA, sinalizando uma reaproximação gradual entre interesses privados americanos e o Estado venezuelano.

Por fim, após a captura de Maduro, Sargeant voltou a atuar como intermediário informal. Em fevereiro de 2025, ajudou a articular uma reunião entre o enviado especial americano Richard Grenell e o então presidente venezuelano, discutindo temas sensíveis como deportação de migrantes, libertação de presos americanos e a extensão da licença da Chevron, posteriormente confirmada por Washington.

Em suma, o caso de Harry Sargeant III ilustra como, na política internacional contemporânea, as fronteiras entre Estado e mercado tornam-se cada vez mais porosas. A reconstrução do setor petrolífero venezuelano, longe de ser apenas um projeto técnico ou humanitário, revela-se um tabuleiro de poder no qual empresários influentes, sanções econômicas e decisões geopolíticas se articulam de maneira decisiva. Portanto, compreender essa dinâmica é essencial para entender não apenas o futuro da Venezuela, mas também os limites (e os riscos) de uma política externa orientada prioritariamente pelos interesses do petróleo.

Harry Sargeant manteve negócios com Maduro apesar das sanções dos EUA

Harry Sargeant manteve negócios com Maduro, apesar das sanções dos EUA

Atuação revela como interesses econômicos ligados ao petróleo relativizaram discursos de defesa da democracia e dos direitos humanos

Enquanto os Estados Unidos afirmavam isolar a ditadura venezuelana por violações democráticas e humanitárias, a petroleira do empresário americano Harry Sargeant III continuou operando no país e negociando diretamente com o governo de Nicolás Maduro, evidenciando uma contradição estrutural entre a política externa declarada e os interesses econômicos ligados ao petróleo.

Antes de mais nada, é preciso explicar ao leitor brasileiro por que a Venezuela foi alvo de sanções e por que empresários americanos, como Harry Sargeant III, continuaram interessados no país. A resposta é simples e, ao mesmo tempo, incômoda: o petróleo venezuelano é abundante, barato de extrair a longo prazo e estratégico para o mercado internacional, especialmente para os Estados Unidos.

As sanções impostas à Venezuela, iniciaram em 2014, depois do latrocínio da Miss Venezuela e seu namorado, um Irlandês. O caso ocorreu após as eleições de 2013, que elegeram Nicolás Maduro para a presidência do governo venezuelano, após a morte de Hugo Chávez.  Uma onda de protestos no mundo motivou os Estados Unidos (sob presidência de Barack Obama), juntamente com as sanções aplicadas pela União Europeia, Canadá, México, Panamá e Suíça, revogar vistos e restringir contratos com empresas venezuelanas vinculadas a Maduro.

A partir de 2017, após a posse do presidente Donald Trump, novas restrições fora impostas e tiveram como justificativa oficial a repressão política, a ausência de eleições livres, denúncias de corrupção e a crise humanitária agravada pelo regime de Nicolás Maduro. Na prática, essas sanções proibiram empresas americanas de negociar petróleo venezuelano, salvo casos específicos autorizados pelo governo dos EUA.

É nesse ponto que ganha destaque Harry Sargeant III e sua empresa, a GlobalOil Terminals, especializada na compra e exportação de derivados de petróleo pesado, especialmente asfalto, um subproduto direto do tipo de petróleo predominante na Venezuela.

Durante anos, a GlobalOil Terminals manteve contratos com a estatal venezuelana PDVSA, negociando volumes expressivos de produto. Em 2024, por exemplo, após um afrouxamento pontual das sanções americanas, a empresa de Sargeant firmou um acordo com a PDVSA equivalente a 570 mil barris de asfalto, destinados a projetos de infraestrutura nos Estados Unidos. Em valores de mercado, trata-se de uma operação multimilionária, ainda que inferior aos contratos das grandes petroleiras tradicionais. O valor corresponde ao orçamento anual de uma cidade de 40 mil habitantes da região sul do Brasil.

O que chama atenção não é apenas o valor financeiro, mas o canal político necessário para que esse tipo de negócio ocorra. Para exportar petróleo ou derivados da Venezuela sob sanções, é indispensável autorização direta do Departamento do Tesouro dos EUA. Ou seja, não se trata de um mercado livre, mas de um sistema seletivo, onde poucos empresários com acesso político conseguem operar.

Harry Sargeant não é um ator neutro nesse sistema. Ele possui relações diretas e antigas com Nicolás Maduro e com a cúpula chavista, negociando pessoalmente com autoridades venezuelanas e mantendo diálogo contínuo com a PDVSA mesmo nos períodos de maior isolamento internacional do regime.

Ao mesmo tempo, Sargeant é um grande financiador do Partido Republicano e mantém relação pessoal com Donald Trump, frequentando seus círculos privados. Essa posição dupla, negociando com Maduro e transitando nos bastidores do poder americano, transformou o empresário em uma espécie de ponte informal entre um regime sancionado e o governo que impunha as sanções.

Em em outras palavras, s sanções funcionaram menos como um bloqueio absoluto e mais como um filtro político-econômico: afastaram empresas sem influência direta em Washington, mas preservaram espaço para empresários estratégicos, capazes de negociar exceções e licenças.

A restrição à GlobalOil Terminals ocorreu apenas na primavera passada, quando o Tesouro americano revogou temporariamente sua licença de exportação. Essa decisão fez parte de uma ofensiva política de pressão contra Maduro. Contudo, o próprio histórico demonstra que tais restrições são reversíveis, variando conforme o interesse estratégico do momento.

A relação entre Sargeant e Maduro também extrapolou os negócios. Em 2025, o empresário participou da articulação de um encontro entre o presidente venezuelano e o enviado especial dos Estados Unidos, tratando de temas como deportação de migrantes, libertação de presos americanos e, novamente, licenças para exploração petrolífera. Ou seja, o petróleo permaneceu como moeda central de negociação política.

Para Maduro, essa relação era vital: garantia alguma entrada de divisas, preservava canais com Washington e sustentava a narrativa de que a Venezuela não estava completamente isolada. Para Sargeant, significava ocupar uma posição privilegiada em um mercado fechado, arriscado, porém altamente lucrativo no longo prazo.

Em conclusão, a relação entre Harry Sargeant III, sua petroleira GlobalOil Terminals e Nicolás Maduro revela uma contradição profunda da política internacional contemporânea. Enquanto discursos oficiais falam em democracia, sanções e punição a regimes autoritários, o petróleo continua a flexibilizar princípios, relativizar condenações e abrir exceções seletivas.

O caso não é apenas sobre negócios, mas sobre quem pode lucrar mesmo quando um país é oficialmente tratado como pária internacional. No tabuleiro do petróleo, valores democráticos frequentemente cedem espaço ao pragmatismo econômico. A história da atuação de Harry Sargeant na Venezuela é um exemplo emblemático dessa lógica silenciosa, porém persistente.

O voo do Condor e a queda do silêncio

A MEMÓRIA DO TERROR DAS DIDATURAS DA AMERICA DO SUL



O julgamento da Operação Condor, concluído em Buenos Aires após três anos, marcou um ponto de inflexão na história recente da América do Sul. Pela primeira vez, a Justiça reconheceu formalmente a existência de uma conspiração criminosa transnacional entre regimes militares do Cone Sul, responsável por sequestros, torturas e assassinatos de opositores políticos nas décadas de 1970 e 1980. A condenação de 14 ex-oficiais militares não apenas responsabilizou indivíduos, mas consolidou juridicamente aquilo que por décadas permaneceu como memória fragmentada das vítimas e de seus familiares. Casos como o de Noemí Gianotti de Molfino revelam a dimensão humana da repressão e evidenciam que a justiça tardia, embora incompleta, é fundamental para a reconstrução da confiança social e para a preservação da verdade histórica.



 

BUENOS AIRES — O telefone público parecia um objeto banal naquela manhã de inverno limeña, mas foi ali que o tempo se partiu para sempre na vida de Gustavo Molfino. Do outro lado da linha, a voz da mãe não vinha em tom de despedida solene, mas de urgência nua, quase animal: “Salve-se, porque você tem sua vida pela frente”. Era 12 de junho de 1980. Minutos depois, Noemí Gianotti de Molfino desaparecia nas mãos de agentes militares. Nunca mais voltaria.

Gustavo tinha então 15 anos e carregaria essa cena como uma ferida aberta por décadas. A conversa curta, o conselho impossível de obedecer sem culpa, o silêncio que se seguiu. Sua mãe, argentina, 54 anos, militante política, tornava-se mais um corpo tragado pela engrenagem continental da Operação Condor: um pacto secreto entre ditaduras do Cone Sul para caçar opositores além das fronteiras, como se o exílio fosse apenas uma pausa antes da morte.

Reynaldo Bignone, último ditador militar da Argentina, em Buenos Aires em 2012. Ele estava entre os condenados

 

 

Décadas depois, em Buenos Aires, o passado voltou a sentar-se no banco dos réus. Um julgamento histórico, estendido por três anos, reuniu testemunhos, documentos, memórias quebradas e ossos ainda não encontrados. Na sexta-feira, quatro juízes anunciaram a condenação de 14 ex-oficiais militares (treze argentinos e um uruguaio) por sequestros, torturas e assassinatos cometidos sob o guarda-chuva da Operação Condor. Outros dois foram absolvidos; um réu foi condenado em processo separado. O veredito não trouxe os mortos de volta, mas quebrou algo antigo e espesso: o silêncio jurídico.

 

Quando o juiz Oscar R. Amirante leu as sentenças (penas entre oito e 25 anos de prisão), entre os condenados estava Reynaldo Bignone, último ditador militar argentino. Muitos já cumprem penas por outros crimes. Ainda assim, o simbolismo era maior que os números. Pela primeira vez, um tribunal reconhecia formalmente que Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai haviam atuado como uma organização criminosa regional, coordenando a repressão como quem organiza uma operação militar transnacional.

 

“Agora existe uma verdade jurídica que confirma, de forma esmagadora, o que sempre esteve nos livros de história”, afirmou Gastón Chillier, do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais, organização que, ao lado de familiares das vítimas, levou o caso adiante. Não era apenas justiça penal; era uma disputa pela memória.

“voando como um condor”

A Operação Condor não foi um delírio isolado, mas uma arquitetura racional do terror. Concebida em novembro de 1975, sob a liderança do ditador chileno Augusto Pinochet, recebeu o nome da ave que sobrevoa os Andes. Os militares diziam estar “voando como um condor” quando cruzavam fronteiras para capturar opositores. Pelo menos 377 pessoas desapareceram nesse sistema, segundo relatório conjunto da Unesco e do governo argentino de 2015. “O Condor forneceu a estrutura”, resumiu o promotor-chefe Pablo Ouviña, como quem descreve um projeto de engenharia, só que voltado à morte.

 

Noemí Gianotti de Molfino não figurava entre as 106 vítimas diretamente vinculadas às condenações anunciadas. Seu caso corre em processo separado. Ainda assim, sua história sintetiza a lógica do Condor. Em 1977, fugira com o filho para o exílio. Militante dos Montoneros, Gustavo tornou-se mensageiro adolescente, escondendo microfilmes em brinquedos e maços de cigarro, cruzando continentes com a naturalidade forçada de quem aprende cedo demais a sobreviver.

 

Em 1980, Lima tornou-se base do grupo. No dia do sequestro, Gustavo retornava à casa onde a mãe estava hospedada quando viu policiais armados cercando o local. Correu até o telefone público. A ligação derradeira. Após o sequestro, Noemí foi levada à Bolívia, depois à Espanha, onde foi forçada a ingerir uma overdose de comprimidos e abandonada em um quarto de hotel. A morte como encenação de suicídio. Outros dois militantes receberam a ordem administrativa de “desaparecer permanentemente”.

Hoje, aos 54 anos, Gustavo ainda revisita aquele dia em pensamento. “Passei um mês imaginando o que poderia ter feito se tivesse armas”, confessou, entre lágrimas. “Granadas, tiros, como num filme. Mas era impossível.” A frase carrega a dor crua da impotência, comum a toda uma geração.

 

Nem todos os familiares sentiram alívio. Edgardo Binstock, cuja esposa Mónica foi sequestrada no Brasil em 1980, ouviu o veredito com frustração. O desaparecimento dela não pôde ser juridicamente ligado a nenhum réu. “Eu queria uma condenação para Mónica”, disse. “Mas, mesmo assim, o caso é um aviso: mais cedo ou mais tarde, a justiça chega.”

 

“Eles geram confiança na sociedade”

 

Para sobreviventes como Sara Rita Méndez, sequestrada e torturada em 1976, os julgamentos têm um valor que vai além das sentenças. “Eles geram confiança na sociedade”, afirmou. Em centros clandestinos como Automotores Orletti, hoje espaço de memória, pessoas eram despidas, penduradas em vigas, eletrocutadas. Rádios ligados no volume máximo abafavam os gritos. “Era um ambiente infernal. Não havia pausa.”

 

Enquanto outros países sul-americanos fracassaram em julgar seus algozes, a Argentina avançou. Desde a última década, ao menos 666 pessoas foram condenadas por crimes da chamada “guerra suja”. Promotores exploraram brechas legais deixadas pelas leis de anistia dos anos 1980. Abriram caminho onde antes havia muros.

 

A recente desclassificação parcial de documentos norte-americanos reacendeu esperanças de novas revelações. Há também temores políticos. Mudanças de governo sempre levantam dúvidas sobre o compromisso com a memória. O presidente Mauricio Macri declarou que os julgamentos continuarão. “Estamos no caminho certo”, disse.

 

A história, porém, ensina prudência. Justiça tardia nunca é completa, mas sua ausência é ainda mais violenta. Para Gustavo Molfino, cada sentença não apaga o telefonema de 1980. Mas o transforma. O que antes era apenas dor privada torna-se, enfim, um fato reconhecido pelo mundo. O Condor voou alto demais por muito tempo. Agora, ao menos, foi nomeado, julgado e condenado, não como metáfora, mas como crime.

A ofensiva regional da direita sob Javier Milei

Milei lança ofensiva regional da direita na América Latina

Argentina busca liderar bloco ideológico alinhado a Washington, em confronto direto com governos progressistas e influência chinesa. A Casa Rosada volta a ser palco de uma diplomacia declaradamente ideológica. Javier Milei, recém-chegado ao poder e já cercado de controvérsias, aposta em algo maior do que reformas internas: a construção de um bloco regional de direita, alinhado aos Estados Unidos e pensado para confrontar governos progressistas latino-americanos. O presidente argentino, economista de perfil libertário radical, governa com discurso frontal contra o Estado intervencionista, sindicatos e a esquerda regional. Em entrevista à CNN, confirmou que trabalha na formação de uma aliança “anti-woke” — expressão importada do debate cultural norte-americano e usada para criticar pautas ligadas a direitos sociais e redistribuição econômica.

Ecos históricos

A iniciativa não é inédita. Em 2017, o Grupo de Lima tentou isolar diplomaticamente o governo de Nicolás Maduro. Milei, porém, pretende ir além: dar ao bloco um caráter assumidamente ideológico, liberal na economia e conservador na política.

Os aliados

  • José Antonio Kast (Chile) – líder da extrema-direita, fundador do Partido Republicano.
  • Nayib Bukele (El Salvador) – presidente marcado por políticas de segurança duras e estilo personalista.
  • Rodrigo Paz (Bolívia) – senador liberal, opositor ao MAS.
  • Daniel Noboa (Equador) – jovem empresário-presidente, próximo dos EUA.
  • Santiago Peña (Paraguai) – herdeiro político do Partido Colorado.
Outros nomes orbitam essa constelação: José Raúl Mulino (Panamá), Luis Abinader (República Dominicana), Nasry Asfura (Honduras) e José Jerí (Peru).

Os excluídos

O discurso de Milei deixa claro quem está fora. O Brasil, sob Luiz Inácio Lula da Silva, é excluído por sua liderança regional e defesa do multilateralismo. Já Venezuela, Cuba e Nicarágua são apresentados como antagonistas centrais, símbolos do “socialismo do século XXI”.

Buenos Aires como quartel-general

Assessores próximos a Donald Trump circulam pela Casa Rosada, reforçando a ideia de que a Argentina se projeta como ponta de lança de um realinhamento continental pró-Washington. Segundo Milei, cerca de dez países já trabalham informalmente nessa articulação, com uma cúpula prevista para 2026 em território argentino.

Análise

Mais do que uma aliança diplomática, o projeto de Milei é uma tentativa de reorganizar o campo simbólico da política latino-americana. Ele transforma política externa em extensão da guerra cultural. Iniciativas semelhantes costumam ter vida curta, mas deixam marcas duradouras no discurso público, radicalizando posições e estreitando margens de negociação. Se terá sucesso concreto, ainda é cedo para afirmar. O que já é visível é a intenção: reposicionar a Argentina como epicentro de uma direita continental militante, em um cenário global cada vez mais polarizado. O risco, como sempre, é que a retórica se torne mais duradoura do que qualquer resultado prático.

Correios e soberania nacional

Correios e soberania nacional

Os Correios integram a soberania, a defesa e a Constituição. Privatizá-los fragiliza o Estado, não resolve eficiência e transfere riscos estratégicos ao mercado.

No dia 24 de setembro de 2013, a então presidente Dilma Rousseff denunciou[mfn]UNITED NATIONS. Postal services as critical infrastructure. UN News, New York, 2013. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2013/09/1450491. Acesso em: 28 dez. 2025.[/mfn], na Assembleia Geral das Nações Unidas, a espionagem[mfn]WIKILEAKS. WikiLeaks. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Wikileaks. Acesso em: 28 dez. 2025.[/mfn] conduzida pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos. O episódio marcou o debate internacional sobre soberania informacional e controle de infraestruturas estratégicas, recolocando o papel do Estado no centro das discussões contemporâneas. A partir desse contexto, tornou-se evidente que fluxos de informação, comunicação e logística ultrapassam o campo técnico e assumem caráter político e estratégico.

Em 2018, o Brasil sancionou a Lei Geral de Proteção de Dados[mfn]BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais. Brasília, DF: Presidência da República, 2018. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm. Acesso em: 28 dez. 2025.[/mfn], reforçando juridicamente essa percepção. A proteção de dados e comunicações passou a ser entendida como dever estatal. Embora hoje a segurança da informação seja associada ao meio digital, os meios físicos continuam relevantes. Dados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos indicam queda aproximada de 70%[mfn]G1. Envio de cartas diminui 70% em 20 anos, mas tradição de escrever à mão segue viva no interior de SP. G1, São Paulo, 18 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2025/10/18/envio-de-cartas-diminui-70percent-em-20-anos-mas-tradicao-de-escrever-a-mao-segue-viva-no-interior-de-sp.ghtml. Acesso em: 28 dez. 2025.[/mfn] no envio de cartas nas últimas duas décadas, reflexo direto da digitalização dos serviços. Essa informação, contudo, não autoriza concluir que os Correios se tornaram obsoletos.

Notícias sobre prejuízos financeiros, necessidade de empréstimos financeiros e greves de trabalhadores dominam o noticiário. Cada vez mais a mídia fomenta a ideia de que a privatização seria a única solução. É nítido que alguém deseja isso.

Entretanto, o que está, de fato, por trás desse interesse recorrente em privatizar o serviço postal brasileiro? Este artigo busca analisar a crise financeira da estatal em 2025, à luz da literatura científica, e comparar a experiência brasileira com a de outros países que seguiram esse caminho.

 

Serviço Constitucional

Reduzir os Correios a uma empresa de cartas e encomendas é um erro analítico recorrente. A estatal é a única instituição civil com presença em todos os municípios brasileiros. Em cerca de 60% das cidades, representa a única presença física da União. Essa ampla rede não existe no setor privado pois não gera lucro. A ampla presença dos Correios é de interesse público.

Além disso, os Correios não são apenas uma empresa pública. Eles são um serviço constitucional. A Constituição Federal de 1988[mfn]BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 28 dez. 2025.[/mfn], em seu artigo 21, inciso X, atribui à União a competência exclusiva para manter o serviço postal e o correio aéreo nacional. Essa escolha decorre de razões históricas e estratégicas. A doutrina constitucional e a literatura internacional reconhecem o serviço postal como infraestrutura essencial à soberania, à integração territorial e à governabilidade do Estado moderno.

Em termos estratégicos, os Correios integram o sistema de defesa e mobilização nacional. Em situações de calamidade, instabilidade institucional, conflitos armados ou colapsos digitais, a rede postal funciona como meio resiliente de comunicação e logística estatal. Diferentemente das plataformas privadas, a infraestrutura postal opera independentemente de sistemas digitais globais e de interesses transnacionais. Estudos da União Postal Universal classificam os serviços postais como infraestrutura crítica em situações de crise sistêmica.

Diferente das notícias de prejuízos econômicos, a literatura científica, mostra outro cenário. Operadores postais estatais fazem parte do que se denomina infraestrutura pública estratégica, ou seja, estruturas sem as quais o Estado perde capacidade de coordenação e presença territorial. Crew e Kleindorfer[mfn]CREW, M.; KLEINDORFER, P. The economics of postal service. New York: Springer, 2002.[/mfn] demonstram que essa função é incompatível com a lógica estrita da maximização do lucro.

Pesquisas envolvendo mais de vinte países indicam que a privatização não melhora, de forma consistente, a eficiência ou a qualidade dos serviços postais. Estudos de Bel e Warner[mfn]BEL, G.; WARNER, M. Does privatization improve public service delivery? Journal of Economic Policy Reform, Abingdon, v. 18, n. 2, p. 123-138, 2015.[/mfn] revelam padrões recorrentes. Empresas privadas concentram-se em segmentos lucrativos, como encomendas urbanas vinculadas ao comércio eletrônico. Regiões rurais e cidades pequenas sofrem redução de atendimento, fechamento de agências e aumento de tarifas. O Estado, ao final, retorna como financiador, pagando pela prestação de serviços que não interessam ao capital privado.

Experiências Internacionais

As experiências internacionais[mfn]BLYTH, Mark. Austerity: The History of a Dangerous Idea. Oxford University Press, 2013.[/mfn] confirmam esse diagnóstico[mfn]CLIFTON, J.; COMÍN, F.; FUENTES, D. Privatization in the European Union. London: Palgrave Macmillan, 2016.[/mfn]. No Reino Unido, a privatização da Royal Mail resultou em aumento de preços e fechamento de agências. Na Alemanha, a Deutsche Post transformou-se em uma multinacional logística, priorizando operações globais e reduzindo o foco no serviço postal universal. Em Portugal, a privatização dos CTT levou ao encerramento de unidades no interior e à deterioração do atendimento. Na Argentina, a concessão privada do Correo Argentino fracassou, culminando em reestatização.

Um efeito recorrente desses processos é a perda de soberania funcional.[mfn]UNIVERSAL POSTAL UNION. Postal services as critical infrastructure. Berna: UPU, s.d.[/mfn] Após a privatização, decisões estratégicas passam a ser tomadas por grupos estrangeiros ou fundos financeiros. Dani Rodrik[mfn]RODRIK, D. The globalization paradox: democracy and the future of the world economy. Oxford: Oxford University Press, 2011.[/mfn] define esse fenômeno como particularmente danoso a países grandes, desiguais e periféricos, pois limita a capacidade do Estado de coordenar políticas públicas e responder a crises.

Do ponto de vista da economia política, os principais interessados na privatização não são os usuários, mas grupos econômicos específicos. Destacam-se empresas internacionais de logística, interessadas em adquirir uma rede pronta e de baixo risco inicial, fundos de investimento que buscam fluxos estáveis de retorno financeiro, e organismos internacionais que promovem a liberalização de serviços públicos como modelo normativo. O interesse recai apenas sobre as partes lucrativas do sistema, enquanto os segmentos deficitários tendem a permanecer sob responsabilidade estatal.[mfn]STIGLITZ, Joseph. The Price of Inequality. W. W. Norton, 2012.[/mfn]

Os Correios assumem a chamada Obrigação de Serviço Universal[mfn]BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A Reforma do Estado nos anos 1990. Editora 34, 1998.[/mfn]. Isso implica atender toda a população, operar em regiões isoladas e manter serviços mesmo onde há prejuízo financeiro crônico. Segundo a literatura, essa obrigação é estruturalmente incompatível com a lógica privada. Por essa razão, historicamente, serviços postais permanecem sob controle estatal.

Além da integração territorial, os Correios exercem funções essenciais. Atuam no apoio a políticas públicas, distribuindo provas do ENEM, materiais eleitorais, livros didáticos, vacinas e documentos oficiais. Exercem papel relevante na logística eleitoral, atividade classificada pela ciência política comparada como função estatal sensível. Prestam serviços financeiros básicos por meio do Banco Postal, promovendo inclusão financeira. Executam comunicações judiciais e administrativas indispensáveis ao funcionamento da Justiça.

Essas funções existem porque são necessárias ao Estado, não porque geram lucro. Privatizar significa submeter essas atividades a interesses privados e, muitas vezes, estrangeiros. Significa fragilizar a capacidade administrativa, logística e informacional do país.

Questão de soberania

A discussão sobre a privatização dos Correios não é técnica nem neutra. É uma decisão política e constitucional. Trata-se de escolher entre um Estado capaz de integrar seu território, proteger suas comunicações e garantir serviços universais, ou um Estado dependente do mercado para funções essenciais. A experiência internacional é clara. Países que compreendem soberania preservam suas infraestruturas estratégicas. Os demais aprendem pela crise.

O vínculo direto entre os Correios, a Constituição Federal e o sistema de defesa nacional raramente aparece no debate público, talvez por sua gravidade institucional.

Day trade: Brasileiros perderam R$ 9,9 bilhões com day trade na pandemia

Brasileiros perderam R$ 9,9 bilhões com day trade na pandemia, aponta estudo da FGV

Estudo da FGV revela que quase 1 milhão de brasileiros perderam capital COM DAY TRADE

 

Durante a pandemia de coronavírus, quase um milhão de brasileiros recorreram ao day trade — prática de comprar e vender ativos na Bolsa de Valores no mesmo dia, buscando ganhos rápidos. O resultado, porém, foi desastroso: segundo um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgado pela Folha de S.Paulo, as perdas acumuladas chegaram a R$ 9,9 bilhões no período.

📊 O que é o day trade?

O day trade é uma estratégia de investimento de curtíssimo prazo. Diferente de quem compra ações para longo prazo, o trader busca lucrar com pequenas variações de preço em questão de minutos ou horas. Embora atraente pela promessa de ganhos rápidos, a prática exige conhecimento técnico, disciplina e experiência. Sem isso, o risco de prejuízo é elevado.

🔎 Principais conclusões do estudo

  • 90% dos investidores que tentaram viver de day trade tiveram prejuízo.
  • A maioria dos participantes não conseguiu manter ganhos consistentes ao longo do tempo.
  • O volume de perdas cresceu justamente no período em que mais pessoas, pressionadas pela crise econômica, buscaram alternativas de renda.

📉 Por que tantos perderam dinheiro

Especialistas apontam que o day trade exige:

  • Alta preparação técnica (análise gráfica, leitura de mercado).
  • Controle emocional para lidar com perdas e não agir por impulso.
  • Capital de risco: investir apenas o que se pode perder.

Na pandemia, muitos iniciantes entraram no mercado sem preparo, acreditando em promessas de enriquecimento rápido. O resultado foi uma onda de prejuízos que reforça a necessidade de educação financeira.

🌍 Impacto social e econômico

O estudo da FGV mostra que o fenômeno não é apenas individual: bilhões de reais foram drenados de famílias brasileiras em um momento de crise sanitária e desemprego. Isso evidencia como a falta de orientação financeira pode agravar vulnerabilidades sociais.

📚 Lições para o futuro

A principal mensagem é clara: investir exige conhecimento e paciência. Estratégias de longo prazo, como fundos diversificados ou ações sólidas, tendem a ser mais seguras do que aventuras de curto prazo. O episódio dos R$ 9,9 bilhões perdidos serve como alerta para que políticas públicas e iniciativas privadas ampliem a educação financeira no Brasil.

Trump inclui seu nome no memorial Kennedy Center e provoca reação política em Washington

 

Trump inclui seu nome no memorial Kennedy Center e provoca reação política em Washington

Presidente reformulou conselho que decidiu alterar a denominação do principal centro cultural dos Estados Unidos

O Conselho do John F. Kennedy Center for the Performing Arts, principal instituição cultural dos Estados Unidos dedicada às artes cênicas, decidiu, na última quinta-feira, incluir o nome do presidente Donald Trump na denominação oficial da entidade. A medida foi tomada após uma ampla reformulação do conselho promovida pelo próprio presidente no início deste ano, quando aliados políticos passaram a ocupar cargos estratégicos. A decisão provocou imediata reação de democratas e reacendeu o debate sobre a legalidade da mudança, uma vez que o centro foi criado por lei federal como memorial permanente ao ex-presidente John F. Kennedy.

Criado em 1958 pelo Congresso dos Estados Unidos, inicialmente como National Cultural Center, o espaço foi oficialmente rebatizado em 1964 como John F. Kennedy Memorial Center for the Performing Arts, em homenagem ao 35º presidente norte-americano, assassinado em 1963. A instituição foi concebida como um memorial vivo, isto é, não apenas um monumento estático, mas um espaço destinado à promoção da cultura, da liberdade de expressão e da pluralidade artística, valores profundamente associados ao legado político e simbólico de Kennedy.

Localizado em Washington, D.C., às margens do rio Potomac, o Kennedy Center foi inaugurado em 1971 e abriga algumas das mais importantes salas de espetáculo do país. Ao longo de décadas, consolidou-se como o epicentro das artes performáticas norte-americanas, sediando óperas, concertos sinfônicos, balés, peças teatrais e eventos de reconhecimento cultural, como o prestigiado Kennedy Center Honors.

Donald Trump, republicano que cumpre seu segundo mandato presidencial, tem demonstrado especial interesse em deixar sua marca simbólica na capital federal, associando seu nome a edifícios e instituições públicas. Recentemente, a administração federal também acrescentou seu nome ao prédio do Instituto da Paz dos Estados Unidos, localizado nas proximidades da Casa Branca. Nesse contexto, a mudança no Kennedy Center surge como parte de uma estratégia mais ampla de afirmação política e simbólica.

Depois de ter demonstrado pouco envolvimento com a instituição durante seu primeiro mandato, Trump iniciou uma profunda intervenção administrativa logo após retornar ao poder. Entre as primeiras medidas, destituiu a antiga presidência do conselho, promoveu alterações internas que o colocaram como presidente da entidade e demitiu o então diretor-presidente de longa data do centro. Para a função executiva, nomeou Richard Grenell, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha e aliado político próximo.

A inclusão do nome de Trump é considerada a mais recente  (e possivelmente a mais visível) transformação em uma instituição que, por mais de meio século, foi amplamente reconhecida como um símbolo da memória de John F. Kennedy e de seu compromisso com a cultura como pilar da democracia.

Em comunicado oficial, a porta-voz do Kennedy Center, Roma Daravi, afirmou:

“O Conselho de Curadores do Kennedy Center votou por unanimidade hoje para nomear a instituição The Donald J. Trump and the John F. Kennedy Memorial Center for the Performing Arts. O novo Trump Kennedy Center reflete o apoio bipartidário inequívoco ao centro cultural da América para as próximas gerações.”

Entretanto, democratas que integram o conselho contestam frontalmente essa narrativa de unanimidade. Eles sustentam que a mudança do nome é juridicamente inválida sem a aprovação expressa do Congresso, uma vez que o caráter memorial do Kennedy Center está previsto em lei federal.

A deputada Joyce Beatty, democrata e membro do conselho na condição ex officio, declarou que foi impedida de se manifestar durante a reunião. Em publicação na rede social X, afirmou:

“Para registro, isso não foi unânime. Eu estava silenciada na ligação e não tive permissão para falar ou expressar minha oposição a esse movimento.”

Beatty foi acompanhada por outros membros ex officio, entre eles o líder democrata do Senado, Chuck Schumer, e o líder democrata da Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries. Esses cargos decorrem diretamente de funções institucionais previstas por ato do Congresso, o que reforça o caráter público e federal da instituição.

Em nota conjunta, os democratas acusaram o presidente de extrapolar suas atribuições legais:

“Além de utilizar o Kennedy Center para recompensar amigos e aliados políticos, o presidente Trump agora tenta afixar seu nome a mais uma instituição pública sem autoridade legal. A lei federal estabeleceu o centro como um memorial ao presidente Kennedy e proíbe a alteração de seu nome sem ação do Congresso.”

Por sua vez, Daravi respondeu às críticas afirmando que todos os membros do conselho foram convidados a participar da reunião e que “o privilégio de acompanhar os trabalhos foi concedido a todos, inclusive aos membros sem direito a voto, como a membra ex officio Joyce Beatty”.

A controvérsia em torno do Kennedy Center é mais do que uma simples mudança administrativa. Trata-se de um embate que envolve memória histórica, limites do poder presidencial e respeito à legislação federal, colocando em choque a herança simbólica de John F. Kennedy, associada à cultura, ao pluralismo e à democracia, e a tentativa de reconfiguração política de uma das mais emblemáticas instituições culturais dos Estados Unidos.


Dinamarca e Groenlândia protestam contra Trump

Dinamarca e Groenlândia protestam contra Trump

Mette Frederiksen e Jens-Frederik Nielsen exigem respeito às fronteiras após Trump nomear enviado para a Groenlândia

Os primeiros-ministros da Dinamarca e da Groenlândia exigiram respeito às suas fronteiras após Donald Trump nomear um enviado especial para o território dinamarquês, em grande parte autônomo, que ele afirmou repetidamente que deveria estar sob controle dos EUA.

“Já dissemos isso muito claramente antes. Agora vamos repetir. As fronteiras nacionais e a soberania dos Estados estão enraizadas no direito internacional … Você não pode anexar outros países”, disseram Mette Frederiksen e Jens-Frederik Nielsen em um acordo conjunto.

Os dois líderes acrescentaram que “princípios fundamentais” estavam em jogo. “A Groenlândia pertence aos groenlandeses, e os EUA não deveriam tomar o controle da Groenlândia”, disseram eles. “Esperamos respeito pela nossa integridade territorial comum.”

O que Trump fez?

Trump nomeou no domingo o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial dos EUA para a vasta ilha ártica rica em minerais. O presidente dos EUA afirmou em várias ocasiões que os EUA precisam adquirir a Groenlândia por razões de segurança, recusando-se a excluir o uso da força.

O presidente dos EUA escreveu nas redes sociais: “Jeff entende o quão essencial a Groenlândia é para nossa Segurança Nacional e avançará fortemente os interesses do nosso país para a segurança, proteção e sobrevivência de nossos Aliados e, de fato, do mundo.”

Landry, ex-procurador-geral estadual que assumiu o cargo de governador da Louisiana em janeiro de 2024, agradeceu a Trump, dizendo que era “uma honra servir você nesta posição voluntária para tornar a Groenlândia parte dos EUA”.

O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, disse à televisão dinamarquesa na segunda-feira que convocaria o embaixador de Washington em Copenhague, Ken Howery, ao ministério nos próximos dias “para obter uma explicação”.

Rasmussen disse estar “profundamente perturbado com essa nomeação de um enviado especial” e “particularmente chateado” com a declaração de Landry, que ele disse que a Dinamarca considerou “completamente inaceitável”.

Ele acrescentou: “Enquanto tivermos um reino na Dinamarca composto pela Dinamarca, Ilhas Faroé e Groenlândia, não podemos aceitar que existam aqueles que minam nossa soberania.”

A segurança no Ártico continua sendo uma prioridade fundamental para a UE, disseram na segunda-feira a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. “Integridade territorial e soberania são princípios fundamentais do direito internacional. Esses princípios são essenciais não apenas para a União Europeia, mas para nações ao redor do mundo”, eles postaram no X.

Von der Leyen e Costa acrescentaram que a UE está “em total solidariedade com a Dinamarca e o povo da Groenlândia”.

A Suécia “sempre estará de guarda sobre o direito internacional”, disse a ministra das Relações Exteriores sueca, Maria Malmer Stenergard. Sua contraparte norueguesa, Espen Barth Eide, disse que Oslo “apoia 100% a Dinamarca”.

Ele disse que estava claro que a nomeação ressaltava a intenção de Trump de tornar a Groenlândia parte dos EUA. “O propósito deste trabalho, que Jeff Landry deve realizar, é tornar a Groenlândia americana”, disse Barth Eide.

A grande maioria dos 57.000 habitantes da Groenlândia quer se tornar independente da Dinamarca, mas não deseja fazer parte dos EUA, segundo uma pesquisa de janeiro. O território tem o direito de declarar independência desde 2009.

Frederiksen disse em uma postagem nas redes sociais que o “aliado de uma vida” da Dinamarca estava colocando a Dinamarca em “uma situação difícil”. Mas ela disse que o país nórdico “não se desviaria de nossos valores democráticos”.

Nielsen disse em outro post que a nomeação “pode parecer grande”, mas “não muda nada para nós em casa. Temos nossa própria democracia, nossas próprias decisões e uma comunidade forte que se mantém firme. A Groenlândia pertence aos groenlandeses.”

Aaja Chemnitz, membro groenlandês do parlamento dinamarquês, disse que a nomeação de um enviado dos EUA não era um problema em si. “O problema é que ele recebeu a tarefa de tomar a Groenlândia ou tornar a Groenlândia parte dos EUA”, disse ela.

“Não há desejo por isso na Groenlândia. Há um desejo de respeitar o futuro que a maioria na Groenlândia deseja, ou seja, permanecer seu próprio país e desenvolver sua independência ao longo do tempo.”

Estrategicamente situada entre a América do Norte e a Europa, em um momento de crescente interesse dos EUA, China e Rússia no Ártico, a Groenlândia também está na rota mais curta para mísseis entre a Rússia e os EUA.

A Dinamarca convocou o encarregado de negócios dos EUA em agosto para uma reunião urgente sobre uma suposta campanha de influência após pelo menos três homens americanos ligados a Trump e à Casa Branca terem sido acusados de tentar infiltrar a sociedade groenlandesa.

Vários políticos e empresários americanos de destaque viajaram para a Groenlândia desde a eleição de Trump. Donald Trump Jr visitou a capital, Nuuk, em janeiro, e o vice-presidente, JD Vance, visitou uma base militar dos EUA em março.

No início deste mês, o serviço de inteligência de defesa dinamarquês afirmou em seu relatório anual que os EUA estavam usando seu poder econômico para “afirmar sua vontade” e ameaçar a força militar tanto contra amigos quanto contra inimigos.

Proposta aprova acordo entre Brasil e Argentina sobre extradição

Proposta aprova acordo entre Brasil e Argentina sobre extradição

Projeto aprova tratado de extradição Brasil-Argentina; define crimes, recusa e tramitação no Congresso Nacional

O Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 162/23 avança no Congresso Nacional ao aprovar o tratado de extradição firmado entre Brasil e Argentina, assinado em Brasília em 2019. A proposta, que já passou pelas comissões de Relações Exteriores e de Defesa Nacional e de Constituição e Justiça e de Cidadania, segue agora para votação no Plenário da Câmara dos Deputados e, posteriormente, no Senado.

O acordo estabelece quais crimes podem motivar pedidos de extradição, define situações em que a solicitação pode ser recusada e prevê, no caso de cidadãos nacionais, medidas para que sejam processados penalmente em seu país de origem.

“Não existem dúvidas sobre a oportunidade da medida, pois as relações entre Brasil e Argentina mostram-se dinâmicas e intensas”, afirmou a deputada Laura Carneiro (PSD-RJ), relatora na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Segundo a parlamentar, a legislação que regula os acordos de cooperação jurídica internacional precisa ser constantemente atualizada, especialmente no que diz respeito aos tratados de extradição.

Contexto internacional

O Brasil mantém diversos acordos jurídicos com países e organismos internacionais. Pela Constituição, todos esses instrumentos devem ser aprovados pelo Congresso Nacional antes de entrarem em vigor.

Próximos passos
A proposta já foi aprovada pelas comissões de Relações Exteriores e de Defesa Nacional; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Agora será analisada pelo Plenário e, depois, pelo Senado.

Conheça a tramitação de projetos de decreto legislativo

Acordos firmados com Filipinas, Guatemala e Nicarágua, Brasil abre 496 mercados desde 2023

Acordos firmados com Filipinas, Guatemala e Nicarágua, Brasil abre 496 mercados desde 2023

Brasil concluiu negociações sanitárias e fitossanitárias  Filipinas, Guatemala e da Nicarágua

O governo brasileiro concluiu negociações sanitárias e fitossanitárias com os governos das Filipinas, da Guatemala e da Nicarágua, que permitirão ao Brasil exportar diversos produtos agropecuários para aqueles países.

Nas Filipinas, as autoridades sanitárias aprovaram a exportação de gordura bovina do Brasil. Trata-se de insumo utilizado na indústria de alimentos e na produção de biocombustíveis, contribuindo neste último caso para a geração de energia de baixo carbono, em particular o diesel verde e o “Sustainable Aviation Fuel”. Com cerca de 115 milhões de habitantes, as Filipinas são um dos maiores mercados consumidores do Sudeste Asiático. Entre janeiro e outubro de 2025, o país importou quase US$ 1,5 bilhão em produtos agropecuários do Brasil.

Na Guatemala, o Brasil obteve autorização fitossanitária para exportar arroz beneficiado (sem casca). Com uma população de cerca de 18 milhões de habitantes, a Guatemala importou mais de USD 192 milhões em produtos agropecuários brasileiros entre janeiro e outubro de 2025. Os cereais foram o principal produto exportado pelo Brasil neste ano.

Na Nicarágua, as autoridades fitossanitárias autorizaram o Brasil a exportar sementes de milheto, crotalária e nabo, insumos estratégicos para a agricultura tropical, que contribuem para o aumento da produtividade e a redução da dependência de fertilizantes minerais. Entre janeiro e outubro de 2025, a Nicarágua importou cerca de USD 55 milhões em produtos agropecuários do Brasil.

Com esses anúncios, o agronegócio brasileiro alcança 496 aberturas de mercado desde o início de 2023.

Os resultados reforçam a estratégia de diversificação de destinos e de produtos, incluindo itens de maior valor agregado, e são fruto do trabalho conjunto entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE).