Milei lança ofensiva regional da direita na América Latina
Argentina busca liderar bloco ideológico alinhado a Washington, em confronto direto com governos progressistas e influência chinesa.
A Casa Rosada volta a ser palco de uma diplomacia declaradamente ideológica. Javier Milei, recém-chegado ao poder e já cercado de controvérsias, aposta em algo maior do que reformas internas: a construção de um bloco regional de direita, alinhado aos Estados Unidos e pensado para confrontar governos progressistas latino-americanos.
O presidente argentino, economista de perfil libertário radical, governa com discurso frontal contra o Estado intervencionista, sindicatos e a esquerda regional. Em entrevista à CNN, confirmou que trabalha na formação de uma aliança “anti-woke” — expressão importada do debate cultural norte-americano e usada para criticar pautas ligadas a direitos sociais e redistribuição econômica.
Ecos históricos
A iniciativa não é inédita. Em 2017, o Grupo de Lima tentou isolar diplomaticamente o governo de Nicolás Maduro. Milei, porém, pretende ir além: dar ao bloco um caráter assumidamente ideológico, liberal na economia e conservador na política.
Os aliados
- José Antonio Kast (Chile) – líder da extrema-direita, fundador do Partido Republicano.
- Nayib Bukele (El Salvador) – presidente marcado por políticas de segurança duras e estilo personalista.
- Rodrigo Paz (Bolívia) – senador liberal, opositor ao MAS.
- Daniel Noboa (Equador) – jovem empresário-presidente, próximo dos EUA.
- Santiago Peña (Paraguai) – herdeiro político do Partido Colorado.
Outros nomes orbitam essa constelação: José Raúl Mulino (Panamá), Luis Abinader (República Dominicana), Nasry Asfura (Honduras) e José Jerí (Peru).
Os excluídos
O discurso de Milei deixa claro quem está fora. O
Brasil, sob Luiz Inácio Lula da Silva, é excluído por sua liderança regional e defesa do multilateralismo. Já
Venezuela, Cuba e Nicarágua são apresentados como antagonistas centrais, símbolos do “socialismo do século XXI”.
Buenos Aires como quartel-general
Assessores próximos a Donald Trump circulam pela Casa Rosada, reforçando a ideia de que a Argentina se projeta como ponta de lança de um realinhamento continental pró-Washington. Segundo Milei, cerca de dez países já trabalham informalmente nessa articulação, com uma cúpula prevista para 2026 em território argentino.
Análise
Mais do que uma aliança diplomática, o projeto de Milei é uma tentativa de reorganizar o campo simbólico da política latino-americana. Ele transforma política externa em extensão da guerra cultural. Iniciativas semelhantes costumam ter vida curta, mas deixam marcas duradouras no discurso público, radicalizando posições e estreitando margens de negociação.
Se terá sucesso concreto, ainda é cedo para afirmar. O que já é visível é a intenção: reposicionar a Argentina como epicentro de uma direita continental militante, em um cenário global cada vez mais polarizado.
O risco, como sempre, é que a retórica se torne mais duradoura do que qualquer resultado prático.