
Trump inclui seu nome no memorial Kennedy Center e provoca reação política em Washington
Presidente reformulou conselho que decidiu alterar a denominação do principal centro cultural dos Estados Unidos
O Conselho do John F. Kennedy Center for the Performing Arts, principal instituição cultural dos Estados Unidos dedicada às artes cênicas, decidiu, na última quinta-feira, incluir o nome do presidente Donald Trump na denominação oficial da entidade. A medida foi tomada após uma ampla reformulação do conselho promovida pelo próprio presidente no início deste ano, quando aliados políticos passaram a ocupar cargos estratégicos. A decisão provocou imediata reação de democratas e reacendeu o debate sobre a legalidade da mudança, uma vez que o centro foi criado por lei federal como memorial permanente ao ex-presidente John F. Kennedy.
Criado em 1958 pelo Congresso dos Estados Unidos, inicialmente como National Cultural Center, o espaço foi oficialmente rebatizado em 1964 como John F. Kennedy Memorial Center for the Performing Arts, em homenagem ao 35º presidente norte-americano, assassinado em 1963. A instituição foi concebida como um memorial vivo, isto é, não apenas um monumento estático, mas um espaço destinado à promoção da cultura, da liberdade de expressão e da pluralidade artística, valores profundamente associados ao legado político e simbólico de Kennedy.
Localizado em Washington, D.C., às margens do rio Potomac, o Kennedy Center foi inaugurado em 1971 e abriga algumas das mais importantes salas de espetáculo do país. Ao longo de décadas, consolidou-se como o epicentro das artes performáticas norte-americanas, sediando óperas, concertos sinfônicos, balés, peças teatrais e eventos de reconhecimento cultural, como o prestigiado Kennedy Center Honors.
Donald Trump, republicano que cumpre seu segundo mandato presidencial, tem demonstrado especial interesse em deixar sua marca simbólica na capital federal, associando seu nome a edifícios e instituições públicas. Recentemente, a administração federal também acrescentou seu nome ao prédio do Instituto da Paz dos Estados Unidos, localizado nas proximidades da Casa Branca. Nesse contexto, a mudança no Kennedy Center surge como parte de uma estratégia mais ampla de afirmação política e simbólica.
Depois de ter demonstrado pouco envolvimento com a instituição durante seu primeiro mandato, Trump iniciou uma profunda intervenção administrativa logo após retornar ao poder. Entre as primeiras medidas, destituiu a antiga presidência do conselho, promoveu alterações internas que o colocaram como presidente da entidade e demitiu o então diretor-presidente de longa data do centro. Para a função executiva, nomeou Richard Grenell, ex-embaixador dos Estados Unidos na Alemanha e aliado político próximo.
A inclusão do nome de Trump é considerada a mais recente (e possivelmente a mais visível) transformação em uma instituição que, por mais de meio século, foi amplamente reconhecida como um símbolo da memória de John F. Kennedy e de seu compromisso com a cultura como pilar da democracia.
Em comunicado oficial, a porta-voz do Kennedy Center, Roma Daravi, afirmou:
“O Conselho de Curadores do Kennedy Center votou por unanimidade hoje para nomear a instituição The Donald J. Trump and the John F. Kennedy Memorial Center for the Performing Arts. O novo Trump Kennedy Center reflete o apoio bipartidário inequívoco ao centro cultural da América para as próximas gerações.”
Entretanto, democratas que integram o conselho contestam frontalmente essa narrativa de unanimidade. Eles sustentam que a mudança do nome é juridicamente inválida sem a aprovação expressa do Congresso, uma vez que o caráter memorial do Kennedy Center está previsto em lei federal.
A deputada Joyce Beatty, democrata e membro do conselho na condição ex officio, declarou que foi impedida de se manifestar durante a reunião. Em publicação na rede social X, afirmou:
“Para registro, isso não foi unânime. Eu estava silenciada na ligação e não tive permissão para falar ou expressar minha oposição a esse movimento.”
Beatty foi acompanhada por outros membros ex officio, entre eles o líder democrata do Senado, Chuck Schumer, e o líder democrata da Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries. Esses cargos decorrem diretamente de funções institucionais previstas por ato do Congresso, o que reforça o caráter público e federal da instituição.
Em nota conjunta, os democratas acusaram o presidente de extrapolar suas atribuições legais:
“Além de utilizar o Kennedy Center para recompensar amigos e aliados políticos, o presidente Trump agora tenta afixar seu nome a mais uma instituição pública sem autoridade legal. A lei federal estabeleceu o centro como um memorial ao presidente Kennedy e proíbe a alteração de seu nome sem ação do Congresso.”
Por sua vez, Daravi respondeu às críticas afirmando que todos os membros do conselho foram convidados a participar da reunião e que “o privilégio de acompanhar os trabalhos foi concedido a todos, inclusive aos membros sem direito a voto, como a membra ex officio Joyce Beatty”.
A controvérsia em torno do Kennedy Center é mais do que uma simples mudança administrativa. Trata-se de um embate que envolve memória histórica, limites do poder presidencial e respeito à legislação federal, colocando em choque a herança simbólica de John F. Kennedy, associada à cultura, ao pluralismo e à democracia, e a tentativa de reconfiguração política de uma das mais emblemáticas instituições culturais dos Estados Unidos.
