notícia não tem lado. a verdade também não.
A ofensiva regional da direita sob Javier Milei
A ofensiva regional da direita sob Javier Milei

A ofensiva regional da direita sob Javier Milei

A ofensiva regional da direita sob Javier Milei
Projeto ideológico, personagens centrais e disputas geopolíticas na América Latina

 

O projeto de Milei busca reunir ao menos dez países governados ou liderados por figuras da direita liberal-conservadora, com uma agenda comum de defesa do livre mercado, oposição ao chamado “socialismo do século XXI” e alinhamento estratégico com Washington. Mais do que política externa, trata-se de uma tentativa de reorganizar o tabuleiro ideológico da América Latina.

 

A Casa Rosada volta a ser palco de uma diplomacia declaradamente ideológica. O presidente argentino Javier Milei, recém-chegado ao poder e já cercado de controvérsias, articula algo mais ambicioso do que reformas internas: a construção de um bloco regional de direita, alinhado aos Estados Unidos, pensado para confrontar governos progressistas latino-americanos e conter a influência chinesa no continente. Javier Milei e a diplomacia ideológica argentina

Javier Milei, economista de formação e político de perfil libertário radical, governa a Argentina com um discurso frontal contra o Estado intervencionista, os sindicatos e a esquerda latino-americana. Em entrevista à CNN, confirmou que trabalha ativamente na formação de uma aliança regional “anti-woke”, expressão importada do debate cultural norte-americano e utilizada para criticar pautas progressistas ligadas a direitos sociais, identidades e políticas redistributivas.

Do ponto de vista histórico, não se trata de novidade absoluta. A América Latina já conheceu articulações semelhantes, como o Grupo de Lima, criado em 2017 para isolar diplomaticamente o governo venezuelano de Nicolás Maduro. Milei, contudo, pretende ir além: dar ao bloco um caráter assumidamente ideológico, liberal nos costumes econômicos e conservador na política.

Os líderes citados por Milei: quem são

Ao mencionar nomes, Milei não fala apenas de chefes de Estado em exercício, mas de figuras políticas que representam correntes específicas da direita latino-americana.

  • José Antonio Kast (Chile) é um político chileno de extrema-direita, fundador do Partido Republicano. Tornou-se conhecido por sua oposição às reformas sociais, à nova Constituição chilena e por um discurso fortemente conservador nos costumes.
  • Nayib Bukele (El Salvador) é presidente do país desde 2019. Tornou-se uma figura central da nova direita latino-americana por seu estilo personalista, pelo uso intensivo das redes sociais e por sua política de segurança extremamente dura contra gangues, elogiada por uns e criticada por organismos de direitos humanos.
  • Rodrigo Paz (Bolívia) é senador e ex-prefeito de Tarija, associado a setores liberais e opositores ao Movimento ao Socialismo (MAS), partido que domina a política boliviana desde a ascensão de Evo Morales.
  • Daniel Noboa (Equador) representa uma direita empresarial jovem. Empresário do setor bananeiro, chegou à presidência em meio a uma crise de segurança e governa com forte aproximação dos Estados Unidos.
  • Santiago Peña (Paraguai) é presidente do Paraguai e herdeiro político do Partido Colorado, força conservadora que domina a política paraguaia há décadas, com exceções pontuais.

 

Outros nomes da constelação conservadora

Além dos já citados, Milei inclui figuras que, mesmo quando não estão no poder, simbolizam alinhamentos ideológicos claros.

América Central e Caribe

  • José Raúl Mulino (Panamá) é um político conservador ligado à segurança pública e à cooperação com os EUA.
  • Luis Abinader (República Dominicana), presidente desde 2020, combina liberalismo econômico com pragmatismo político e boa relação com Washington.
    Nasry Asfura (Honduras) é um empresário e político conservador, ex-prefeito de Tegucigalpa, associado às elites tradicionais do país.

 

Região andina e Peru

José Jerí (Peru) atua no campo conservador e liberal, em um país marcado por extrema instabilidade política desde a queda de Pedro Castillo. No caso peruano, mais do que governos sólidos, o que existe é um campo fragmentado de direita que Milei tenta atrair simbolicamente.

 

Os alvos do projeto: Brasil, Venezuela, Cuba e Nicarágua

O discurso presidencial argentino deixa claro quem fica de fora. O Brasil, governado por Luiz Inácio Lula da Silva, é explicitamente excluído. Não por irrelevância, ao contrário, mas por sua liderança regional, sua defesa do multilateralismo e sua resistência histórica ao intervencionismo direto dos Estados Unidos.

Venezuela, Cuba e Nicarágua aparecem como antagonistas centrais. Para Milei, esses países representam o núcleo do que chama de “socialismo do século XXI”, uma categoria política mais retórica do que analítica, mas eficaz como ferramenta de mobilização ideológica.

 

Buenos Aires como quartel-general

Nos corredores da Casa Rosada, assessores próximos a Donald Trump, como Bruce Friedman e Barry Bennett, circulam com familiaridade. A cena é reveladora: a Argentina de Milei se projeta como ponta de lança de um realinhamento continental pró-Washington, em um momento de disputa global com a China.

Segundo o próprio presidente, já existe um grupo de cerca de dez países trabalhando informalmente nessa articulação. Uma cúpula de líderes está prevista para 2026, em território argentino, ainda sem data ou local definidos.

 

Cena política

Mais do que uma aliança diplomática, o projeto de Javier Milei é uma tentativa de reorganizar o campo simbólico da política latino-americana. Ele transforma política externa em extensão direta da guerra cultural e ideológica. Historicamente, iniciativas assim costumam ter vida curta, mas produzem efeitos duradouros no discurso público, radicalizando posições e estreitando margens de negociação.

Se terá sucesso concreto, é cedo para afirmar. O que já é visível é a intenção: reposicionar a Argentina como epicentro de uma direita continental militante, em um cenário global cada vez mais polarizado.

 

O que li para escrever o texto?

  1. CNN Brasil – “À CNN, Milei diz que vai criar bloco de direita na América do Sul”:
    https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/a-cnn-milei-diz-que-vai-criar-bloco-de-direita-na-america-do-sul// CNN Brasil
  2. InfoMoney – “Milei diz que criará bloco de direita contra ‘câncer do socialismo’ na América do Sul”
    https://www.infomoney.com.br/mundo/milei-diz-que-criara-bloco-de-direita-contra-cancer-do-socialismo-na-america-do-sul/ InfoMoney
  3. Journal De Bruxelles – “Milei quer formar bloco regional contra o socialismo”
    https://www.journaldebruxelles.be/pt/Politica/608773-milei-quer-formar-bloco-regional-contra-o-socialismo.html Journal de Bruxelles
  4. Breitbart – “Javier Milei Announces Creation of Regional Bloc to Stand up to the ‘Cancer of Socialism’”
    https://www.breitbart.com/politics/2026/01/02/javier-milei-announces-creation-of-regional-bloc-to-stand-up-to-the-cancer-of-socialism/ Breitbart
  5. Protothema – “Argentina: Milei wants to found an ‘alliance to fight the cancer of socialism and woke ideology’”
    https://en.protothema.gr/2026/01/02/argentina-milei-wants-to-found-an-alliance-to-fight-the-cancer-of-socialism-and-woke-ideology/ ProtoThema English