A MEMÓRIA DO TERROR DAS DIDATURAS DA AMERICA DO SUL
O julgamento da Operação Condor, concluído em Buenos Aires após três anos, marcou um ponto de inflexão na história recente da América do Sul. Pela primeira vez, a Justiça reconheceu formalmente a existência de uma conspiração criminosa transnacional entre regimes militares do Cone Sul, responsável por sequestros, torturas e assassinatos de opositores políticos nas décadas de 1970 e 1980. A condenação de 14 ex-oficiais militares não apenas responsabilizou indivíduos, mas consolidou juridicamente aquilo que por décadas permaneceu como memória fragmentada das vítimas e de seus familiares. Casos como o de Noemí Gianotti de Molfino revelam a dimensão humana da repressão e evidenciam que a justiça tardia, embora incompleta, é fundamental para a reconstrução da confiança social e para a preservação da verdade histórica.
BUENOS AIRES — O telefone público parecia um objeto banal naquela manhã de inverno limeña, mas foi ali que o tempo se partiu para sempre na vida de Gustavo Molfino. Do outro lado da linha, a voz da mãe não vinha em tom de despedida solene, mas de urgência nua, quase animal: “Salve-se, porque você tem sua vida pela frente”. Era 12 de junho de 1980. Minutos depois, Noemí Gianotti de Molfino desaparecia nas mãos de agentes militares. Nunca mais voltaria.
Gustavo tinha então 15 anos e carregaria essa cena como uma ferida aberta por décadas. A conversa curta, o conselho impossível de obedecer sem culpa, o silêncio que se seguiu. Sua mãe, argentina, 54 anos, militante política, tornava-se mais um corpo tragado pela engrenagem continental da Operação Condor: um pacto secreto entre ditaduras do Cone Sul para caçar opositores além das fronteiras, como se o exílio fosse apenas uma pausa antes da morte.

Décadas depois, em Buenos Aires, o passado voltou a sentar-se no banco dos réus. Um julgamento histórico, estendido por três anos, reuniu testemunhos, documentos, memórias quebradas e ossos ainda não encontrados. Na sexta-feira, quatro juízes anunciaram a condenação de 14 ex-oficiais militares (treze argentinos e um uruguaio) por sequestros, torturas e assassinatos cometidos sob o guarda-chuva da Operação Condor. Outros dois foram absolvidos; um réu foi condenado em processo separado. O veredito não trouxe os mortos de volta, mas quebrou algo antigo e espesso: o silêncio jurídico.
Quando o juiz Oscar R. Amirante leu as sentenças (penas entre oito e 25 anos de prisão), entre os condenados estava Reynaldo Bignone, último ditador militar argentino. Muitos já cumprem penas por outros crimes. Ainda assim, o simbolismo era maior que os números. Pela primeira vez, um tribunal reconhecia formalmente que Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai haviam atuado como uma organização criminosa regional, coordenando a repressão como quem organiza uma operação militar transnacional.
“Agora existe uma verdade jurídica que confirma, de forma esmagadora, o que sempre esteve nos livros de história”, afirmou Gastón Chillier, do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais, organização que, ao lado de familiares das vítimas, levou o caso adiante. Não era apenas justiça penal; era uma disputa pela memória.
“voando como um condor”
A Operação Condor não foi um delírio isolado, mas uma arquitetura racional do terror. Concebida em novembro de 1975, sob a liderança do ditador chileno Augusto Pinochet, recebeu o nome da ave que sobrevoa os Andes. Os militares diziam estar “voando como um condor” quando cruzavam fronteiras para capturar opositores. Pelo menos 377 pessoas desapareceram nesse sistema, segundo relatório conjunto da Unesco e do governo argentino de 2015. “O Condor forneceu a estrutura”, resumiu o promotor-chefe Pablo Ouviña, como quem descreve um projeto de engenharia, só que voltado à morte.
Noemí Gianotti de Molfino não figurava entre as 106 vítimas diretamente vinculadas às condenações anunciadas. Seu caso corre em processo separado. Ainda assim, sua história sintetiza a lógica do Condor. Em 1977, fugira com o filho para o exílio. Militante dos Montoneros, Gustavo tornou-se mensageiro adolescente, escondendo microfilmes em brinquedos e maços de cigarro, cruzando continentes com a naturalidade forçada de quem aprende cedo demais a sobreviver.
Em 1980, Lima tornou-se base do grupo. No dia do sequestro, Gustavo retornava à casa onde a mãe estava hospedada quando viu policiais armados cercando o local. Correu até o telefone público. A ligação derradeira. Após o sequestro, Noemí foi levada à Bolívia, depois à Espanha, onde foi forçada a ingerir uma overdose de comprimidos e abandonada em um quarto de hotel. A morte como encenação de suicídio. Outros dois militantes receberam a ordem administrativa de “desaparecer permanentemente”.
Hoje, aos 54 anos, Gustavo ainda revisita aquele dia em pensamento. “Passei um mês imaginando o que poderia ter feito se tivesse armas”, confessou, entre lágrimas. “Granadas, tiros, como num filme. Mas era impossível.” A frase carrega a dor crua da impotência, comum a toda uma geração.
Nem todos os familiares sentiram alívio. Edgardo Binstock, cuja esposa Mónica foi sequestrada no Brasil em 1980, ouviu o veredito com frustração. O desaparecimento dela não pôde ser juridicamente ligado a nenhum réu. “Eu queria uma condenação para Mónica”, disse. “Mas, mesmo assim, o caso é um aviso: mais cedo ou mais tarde, a justiça chega.”
“Eles geram confiança na sociedade”
Para sobreviventes como Sara Rita Méndez, sequestrada e torturada em 1976, os julgamentos têm um valor que vai além das sentenças. “Eles geram confiança na sociedade”, afirmou. Em centros clandestinos como Automotores Orletti, hoje espaço de memória, pessoas eram despidas, penduradas em vigas, eletrocutadas. Rádios ligados no volume máximo abafavam os gritos. “Era um ambiente infernal. Não havia pausa.”
Enquanto outros países sul-americanos fracassaram em julgar seus algozes, a Argentina avançou. Desde a última década, ao menos 666 pessoas foram condenadas por crimes da chamada “guerra suja”. Promotores exploraram brechas legais deixadas pelas leis de anistia dos anos 1980. Abriram caminho onde antes havia muros.
A recente desclassificação parcial de documentos norte-americanos reacendeu esperanças de novas revelações. Há também temores políticos. Mudanças de governo sempre levantam dúvidas sobre o compromisso com a memória. O presidente Mauricio Macri declarou que os julgamentos continuarão. “Estamos no caminho certo”, disse.
A história, porém, ensina prudência. Justiça tardia nunca é completa, mas sua ausência é ainda mais violenta. Para Gustavo Molfino, cada sentença não apaga o telefonema de 1980. Mas o transforma. O que antes era apenas dor privada torna-se, enfim, um fato reconhecido pelo mundo. O Condor voou alto demais por muito tempo. Agora, ao menos, foi nomeado, julgado e condenado, não como metáfora, mas como crime.
