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Harry Sargeant manteve negócios com Maduro apesar das sanções dos EUA
Harry Sargeant manteve negócios com Maduro apesar das sanções dos EUA

Harry Sargeant manteve negócios com Maduro apesar das sanções dos EUA

Harry Sargeant manteve negócios com Maduro, apesar das sanções dos EUA

Atuação revela como interesses econômicos ligados ao petróleo relativizaram discursos de defesa da democracia e dos direitos humanos

Enquanto os Estados Unidos afirmavam isolar a ditadura venezuelana por violações democráticas e humanitárias, a petroleira do empresário americano Harry Sargeant III continuou operando no país e negociando diretamente com o governo de Nicolás Maduro, evidenciando uma contradição estrutural entre a política externa declarada e os interesses econômicos ligados ao petróleo.

Antes de mais nada, é preciso explicar ao leitor brasileiro por que a Venezuela foi alvo de sanções e por que empresários americanos, como Harry Sargeant III, continuaram interessados no país. A resposta é simples e, ao mesmo tempo, incômoda: o petróleo venezuelano é abundante, barato de extrair a longo prazo e estratégico para o mercado internacional, especialmente para os Estados Unidos.

As sanções impostas à Venezuela, iniciaram em 2014, depois do latrocínio da Miss Venezuela e seu namorado, um Irlandês. O caso ocorreu após as eleições de 2013, que elegeram Nicolás Maduro para a presidência do governo venezuelano, após a morte de Hugo Chávez.  Uma onda de protestos no mundo motivou os Estados Unidos (sob presidência de Barack Obama), juntamente com as sanções aplicadas pela União Europeia, Canadá, México, Panamá e Suíça, revogar vistos e restringir contratos com empresas venezuelanas vinculadas a Maduro.

A partir de 2017, após a posse do presidente Donald Trump, novas restrições fora impostas e tiveram como justificativa oficial a repressão política, a ausência de eleições livres, denúncias de corrupção e a crise humanitária agravada pelo regime de Nicolás Maduro. Na prática, essas sanções proibiram empresas americanas de negociar petróleo venezuelano, salvo casos específicos autorizados pelo governo dos EUA.

É nesse ponto que ganha destaque Harry Sargeant III e sua empresa, a GlobalOil Terminals, especializada na compra e exportação de derivados de petróleo pesado, especialmente asfalto, um subproduto direto do tipo de petróleo predominante na Venezuela.

Durante anos, a GlobalOil Terminals manteve contratos com a estatal venezuelana PDVSA, negociando volumes expressivos de produto. Em 2024, por exemplo, após um afrouxamento pontual das sanções americanas, a empresa de Sargeant firmou um acordo com a PDVSA equivalente a 570 mil barris de asfalto, destinados a projetos de infraestrutura nos Estados Unidos. Em valores de mercado, trata-se de uma operação multimilionária, ainda que inferior aos contratos das grandes petroleiras tradicionais. O valor corresponde ao orçamento anual de uma cidade de 40 mil habitantes da região sul do Brasil.

O que chama atenção não é apenas o valor financeiro, mas o canal político necessário para que esse tipo de negócio ocorra. Para exportar petróleo ou derivados da Venezuela sob sanções, é indispensável autorização direta do Departamento do Tesouro dos EUA. Ou seja, não se trata de um mercado livre, mas de um sistema seletivo, onde poucos empresários com acesso político conseguem operar.

Harry Sargeant não é um ator neutro nesse sistema. Ele possui relações diretas e antigas com Nicolás Maduro e com a cúpula chavista, negociando pessoalmente com autoridades venezuelanas e mantendo diálogo contínuo com a PDVSA mesmo nos períodos de maior isolamento internacional do regime.

Ao mesmo tempo, Sargeant é um grande financiador do Partido Republicano e mantém relação pessoal com Donald Trump, frequentando seus círculos privados. Essa posição dupla, negociando com Maduro e transitando nos bastidores do poder americano, transformou o empresário em uma espécie de ponte informal entre um regime sancionado e o governo que impunha as sanções.

Em em outras palavras, s sanções funcionaram menos como um bloqueio absoluto e mais como um filtro político-econômico: afastaram empresas sem influência direta em Washington, mas preservaram espaço para empresários estratégicos, capazes de negociar exceções e licenças.

A restrição à GlobalOil Terminals ocorreu apenas na primavera passada, quando o Tesouro americano revogou temporariamente sua licença de exportação. Essa decisão fez parte de uma ofensiva política de pressão contra Maduro. Contudo, o próprio histórico demonstra que tais restrições são reversíveis, variando conforme o interesse estratégico do momento.

A relação entre Sargeant e Maduro também extrapolou os negócios. Em 2025, o empresário participou da articulação de um encontro entre o presidente venezuelano e o enviado especial dos Estados Unidos, tratando de temas como deportação de migrantes, libertação de presos americanos e, novamente, licenças para exploração petrolífera. Ou seja, o petróleo permaneceu como moeda central de negociação política.

Para Maduro, essa relação era vital: garantia alguma entrada de divisas, preservava canais com Washington e sustentava a narrativa de que a Venezuela não estava completamente isolada. Para Sargeant, significava ocupar uma posição privilegiada em um mercado fechado, arriscado, porém altamente lucrativo no longo prazo.

Em conclusão, a relação entre Harry Sargeant III, sua petroleira GlobalOil Terminals e Nicolás Maduro revela uma contradição profunda da política internacional contemporânea. Enquanto discursos oficiais falam em democracia, sanções e punição a regimes autoritários, o petróleo continua a flexibilizar princípios, relativizar condenações e abrir exceções seletivas.

O caso não é apenas sobre negócios, mas sobre quem pode lucrar mesmo quando um país é oficialmente tratado como pária internacional. No tabuleiro do petróleo, valores democráticos frequentemente cedem espaço ao pragmatismo econômico. A história da atuação de Harry Sargeant na Venezuela é um exemplo emblemático dessa lógica silenciosa, porém persistente.