Empresários americanos passaram a redesenhar a política dos EUA para a Venezuela após a queda de Maduro
Após a prisão de Nicolás Maduro em uma operação militar dos Estados Unidos, o governo Trump passou a se apoiar em executivos do setor petrolífero para planejar a reentrada de empresas americanas na Venezuela. No centro desse processo está o bilionário Harry Sargeant III, empresário com longa atuação no país, relações diretas com Trump e histórico de interlocução com a elite chavista, revelando como interesses energéticos têm orientado a nova estratégia norte-americana para o futuro venezuelano.
Harry Sargeant III, bilionário do setor energético e importante doador do Partido Republicano é apontado como um dos principais conselheiros informais da administração Donald Trump para reorganizar o setor petrolífero venezuelano no período pós-Maduro.
Segundo fontes próximas às discussões internas do governo norte-americano, Sargeant e membros de sua equipe vêm orientando Washington sobre como permitir o retorno gradual de empresas petrolíferas dos Estados Unidos à Venezuela. Esse movimento ganhou força após a recente e dramática operação militar americana que culminou na prisão do então presidente Nicolás Maduro, evento que alterou radicalmente o equilíbrio político do país.
Sobretudo, o envolvimento de Sargeant evidencia uma característica recorrente da política externa americana em contextos de crise energética: a dependência de executivos privados para suprir a ausência de expertise técnica dentro do próprio Estado. Como observou uma das fontes da Casa Branca, há pouquíssimos quadros no governo dos EUA capazes de lidar com a complexidade operacional e financeira da indústria petrolífera venezuelana, o que abre espaço para a influência direta de empresários experientes, e politicamente conectados.
Nesse cenário, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou que os Estados Unidos refinariam e venderiam até 50 milhões de barris de petróleo venezuelano apreendido, afirmando que os recursos obtidos seriam distribuídos de maneira controlada, com o discurso oficial de beneficiar a população do país. Trata-se de uma estratégia que combina retórica humanitária com controle econômico, algo recorrente na história das intervenções americanas na América Latina.
Embora os interesses comerciais de Sargeant na Venezuela sejam modestos se comparados aos da Chevron (atualmente a única empresa americana com autorização federal para exportar petróleo venezuelano), sua presença no país remonta à década de 1980. Suas empresas atuam principalmente na exportação de asfalto, derivado do petróleo pesado venezuelano, além de investimentos diretos em campos petrolíferos. Ao longo desse período, Sargeant construiu relações com figuras centrais do poder chavista, incluindo o próprio Maduro e a atual presidente interina, Delcy Rodríguez.
Do mesmo modo, sua proximidade pessoal com Donald Trump reforça seu peso político. Segundo relatos, Sargeant frequenta Mar-a-Lago, joga golfe com o ex-presidente e mantém acesso direto a membros-chave da administração. Recentemente, reuniu-se com autoridades como o secretário de Energia, Chris Wright, para discutir a necessidade de modernização da infraestrutura petrolífera venezuelana e os termos contratuais que poderiam tornar o país novamente atraente às empresas americanas, historicamente receosas dos riscos jurídicos e financeiros envolvidos.
Embora Sargeant negue atuar como assessor formal do governo, confirmou que seu filho e outros executivos de sua confiança mantêm diálogo constante com autoridades americanas. Além disso, como outros líderes do setor, ele defende uma abordagem pragmática: negociar com Delcy Rodríguez, figura central do antigo regime, em vez de apostar exclusivamente na líder da oposição, Maria Corina Machado. Na visão de Sargeant, Rodríguez teria maior capacidade de controlar o setor petrolífero e, eventualmente, conduzir uma transição política com eleições supervisionadas.
Enquanto isso, a Casa Branca evita comentar diretamente o papel do empresário, limitando-se a afirmar que Trump estaria exercendo “máxima influência” sobre os remanescentes do poder venezuelano, com objetivos claros: conter a migração ilegal, interromper o tráfico de drogas, revitalizar a indústria do petróleo e, ao menos no discurso, promover o bem-estar da população venezuelana.
A trajetória de Sargeant ajuda a compreender por que seu nome suscita controvérsias. Ex-diretor financeiro do Partido Republicano da Flórida, ele e sua família doaram milhões de dólares a campanhas conservadoras, incluindo aportes significativos ao Trump Victory Fund. No plano internacional, atuou em alguns dos ambientes mais instáveis do mundo, como o Iraque em guerra, onde firmou contratos para abastecer tropas americanas, contratos que, anos depois, foram alvo de investigações por suposto superfaturamento, das quais acabou absolvido.
Mais recentemente, suas operações na Venezuela foram impactadas pelas sanções impostas pelo próprio governo Trump em seu primeiro mandato, quando o Departamento do Tesouro revogou licenças que permitiam a exportação de asfalto. Ainda assim, com o afrouxamento parcial das sanções em 2024, suas empresas retomaram acordos com a estatal PDVSA, sinalizando uma reaproximação gradual entre interesses privados americanos e o Estado venezuelano.
Por fim, após a captura de Maduro, Sargeant voltou a atuar como intermediário informal. Em fevereiro de 2025, ajudou a articular uma reunião entre o enviado especial americano Richard Grenell e o então presidente venezuelano, discutindo temas sensíveis como deportação de migrantes, libertação de presos americanos e a extensão da licença da Chevron, posteriormente confirmada por Washington.
Em suma, o caso de Harry Sargeant III ilustra como, na política internacional contemporânea, as fronteiras entre Estado e mercado tornam-se cada vez mais porosas. A reconstrução do setor petrolífero venezuelano, longe de ser apenas um projeto técnico ou humanitário, revela-se um tabuleiro de poder no qual empresários influentes, sanções econômicas e decisões geopolíticas se articulam de maneira decisiva. Portanto, compreender essa dinâmica é essencial para entender não apenas o futuro da Venezuela, mas também os limites (e os riscos) de uma política externa orientada prioritariamente pelos interesses do petróleo.
